sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Desmistificando o orçamento familiar


Comece a planejar o seu orçamento familiar

Gastar com prudência e poupar com sabedoria. A fórmula para manter o orçamento familiar organizado seria simples, não fossem os apelos de consumo que tanto seduzem os brasileiros. O que falta, na verdade, é um planejamento eficiente, que permita o controle de gastos, o estabelecimento de prioridades e até mesmo a montagem uma boa reserva financeira. William Eid, professor de Finanças da FGV, mostra como é possível estabelecer metas para realizar sonhos a médio e longo prazos.

Qual a melhor maneira de organizar o orçamento familiar? 
A palavra chave para organizar o orçamento familiar é planejamento. Existem alguns princípios básicos para planejar as finanças. O primeiro deles é conhecer adequadamente as receitas e despesas mensais. Normalmente, as pessoas não conhecem esses dois pontos a fundo, sobretudo as despesas. É recomendável que sejam observadas primeiramente as despesas fixas, como aluguel, condomínio e a escola dos filhos, por exemplo. É preciso considerar também as despesas variáveis, como o lazer ou viagens. Para fazer este levantamento de maneira adequada é preciso acompanhar essa movimentação durante algum tempo. Dessa forma, será possível identificar os gastos reais.

O que deve ser feito a partir deste primeiro diagnóstico financeiro?
Depois desse primeiro passo, ou seja, a partir do momento em que a pessoa conhece a própria situação financeira, sabendo o quanto ganha e o quanto gasta, é preciso identificar quais são os objetivos da família. Isso varia a cada caso. O sonho pode ser uma viagem, comprar uma casa ou trocar de carro. Seja o que for, é preciso que seja bem definido e que a decisão seja tomada em conjunto. Além disso, é necessário quantificar esse objetivo, ou seja, o investimento previsto para realizar esse desejo. Feito todo este levantamento, será possível identificar quanto dinheiro a família terá que poupar e quanto poderá guardar.

É possível organizar o orçamento de maneira que sobre dinheiro para os investimentos? 
É importante entender que as despesas estão divididas em quatro grandes grupos: A, de alimentos; B, de básicas; C de contornáveis; e D, de dispensáveis. Levando isso em conta, é preciso mexer nesta estrutura, sobretudo nos gastos dispensáveis, para que se tenha dinheiro para investir. No entanto, é preciso lembrar que o investimento não deve estar relacionado ao dinheiro que sobra. Investimento é uma despesa como outra qualquer e o dinheiro destinado a isto deve ser separado no momento em que recebemos o salário. Se deixarmos para o fim do mês, não sobra nada.

Como uma pessoa que está com as finanças em desequilíbrio pode se organizar novamente? 
Este processo envolve uma reeducação financeira. Um ponto muito importante é evitar a compra por impulso, o crediário e o cheque especial. O cartão de crédito só deve ser usado quando oferecer vantagens, como as pontuações acumuladas que podem ser revertidas em prêmios como passagens aéreas e outros. Mas é importante lembrar que faturas devem ser pagas a vista. É claro que ninguém precisa se transformar em um “Tio Patinhas”, afinal, o consumo é prazeroso. A idéia é consumir de forma mais racional. Quem tem um planejamento financeiro sabe o quanto pode gastar em um final de semana, por exemplo. É um erro muito comum associar o planejamento financeiro à privação. Não podemos esquecer que somos nós quem administramos o orçamento e, portanto, devemos fazê-lo da maneira que mais nos agrada. Para retomar o equilibrado financeiro é preciso seguir este passo a passo, não existe outra saída. É preciso botar tudo na ponta do lápis, trocar as dívidas mais caras pelas mais baratas e livrar-se dos juros.

A aposentadoria deve ser incluída neste planejamento? 
O planejamento da aposentadoria se enquadra dentro dos objetivos de cada um. As pessoas precisam ter reservas para esta etapa da vida. É importante buscar um fundo de pensão considerando este planejamento como um investimento. O montante ideal que será recebido durante a aposentadoria varia de acordo com o planejamento de cada pessoa porque as pessoas se aposentam em momentos diferentes da vida familiar. Eu, por exemplo, tenho 47 anos e dois filhos pequenos, de quatro e cinco anos. Na hora em que me aposentar, terei que pensar na educação deles. Quando eu tiver 60 anos, eles vão estar na universidade e precisarei ter renda para bancar isso. Por outro lado, tenho amigos da minha idade cujos filhos já estão saindo da universidade, ou seja, não terão que se preocupar com isso durante a aposentadoria. Tudo isso deve ser levado em conta.

Por que o hábito de poupar, sobretudo para a aposentadoria, ainda não faz parte da realidade da maioria dos brasileiros? 
Acredito que isso seja cultural. Temos uma cultura de ostentação e consumismo desenfreado. São raras as pessoas que tem uma reserva para emergência. Eu já tive vizinhos que tinham carros importados na garagem e no final do mês não tinham dinheiro para pagar o condomínio, porque tinham que pagar a prestação do automóvel. A prioridade acaba sendo o consumo e o status. A necessidade de ter e aparentar transforma o consumidor em inimigo de si próprio. Ele se torna vítima da ganância, que leva ao consumismo, e da falta de informação, que gera desperdício e prejuízo. As pessoas não têm o hábito de fazer poupança, investimento ou reserva, muito menos para a aposentadoria, ou seja, a maioria fica dependendo do INSS. É preciso começar a pensar na aposentadoria cedo. Quanto antes a pessoa começar a poupar, menos dinheiro vai precisar desembolsar a cada mês para ter um futuro tranqüilo.

Qual a principal vantagem de saber administrar o orçamento? 
Quem sabe administrar o dinheiro acaba aprendendo a viver de acordo com as reais condições financeiras. O orçamento envolve planejar os gastos, definir as necessidades e eleger as prioridades dentro da renda disponível. O planejamento financeiro nos ajuda a entender nossos hábitos de consumo, a identificar nossos objetivos e a atingir nossas metas. Estabelecer um orçamento doméstico não é fácil, mas é fundamental para quem planeja o próprio futuro e o da família.

Entrevista concedida à Revista Ciclo em novembro de 2003.

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